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EDITORIAL

Gasto governamental impulsiona economia global

Marcelo Henrique de CarvalhoPor Marcelo Henrique de Carvalhojaneiro 26, 2026Nenhum comentário 5 Mins lidos
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O gasto público voltou a ocupar o centro do palco da economia mundial. Em meio a guerras, emergência climática, transição energética e sistemas de bem‑estar pressionados pelo envelhecimento da população, governos expandem despesas e aceitam déficits maiores como preço político de evitar recessões prolongadas e convulsões sociais. A conta dessa escolha aparece em números históricos: a dívida pública global supera a marca de 100 trilhões de dólares e volta a crescer mais rápido do que a renda produzida pelo planeta.

A estratégia é clara, ainda que controversa. Ao ampliar gastos com infraestrutura, transferências de renda e incentivos setoriais, Estados tentam sustentar a demanda agregada diante de um cenário de juros elevados, investimentos privados hesitantes e fragmentação geopolítica. No curto prazo, a política funciona como um colchão: suaviza ciclos, evita colapsos de crédito e mantém ocupados milhões de trabalhadores que, de outra forma, engrossariam estatísticas de desemprego. Para muitas economias avançadas, que conseguem se financiar a custos historicamente baixos e em moedas de reserva, essa flexibilidade fiscal virou um instrumento quase permanente de gestão macroeconômica.

Os números ajudam a dimensionar o fenômeno. Relatórios recentes indicam que a dívida pública mundial ultrapassou 100 trilhões de dólares em 2024, impulsionada principalmente por grandes economias como Estados Unidos e China. Em termos relativos, a projeção é que o endividamento dos governos se mantenha próximo ou acima de 90% do PIB global e possa se aproximar de 100% até o fim da década, em trajetória superior ao pico observado na pandemia. Ao mesmo tempo, a maior parte dos países continua operando no vermelho: em 2023, a média do resultado fiscal entre membros da OCDE foi um déficit de 4,6% do PIB, com apenas seis nações registrando superávit.

Essa combinação de gasto forte e déficit estrutural não é homogênea. Países ricos, com mercados de capitais profundos e bancos centrais respeitados, seguem se endividando em sua própria moeda, alongando prazos e rolando passivos com relativa facilidade. Já nas economias em desenvolvimento o quadro é mais delicado: desde 2010, a dívida pública desses países cresce duas vezes mais rápido do que a dos avançados, alcançando cerca de 31 trilhões de dólares, com custos de financiamento entre duas e quatro vezes superiores aos americanos. Em 2024, só em juros, governos em desenvolvimento destinaram cerca de 921 bilhões de dólares, o que significa menos recursos para saúde, educação e infraestrutura.

A assimetria revela o outro lado da moeda de uma estratégia que, à primeira vista, impulsiona a atividade global. No agregado, o gasto público em alta ajuda a sustentar o PIB, mantém projetos de investimento em curso e dá fôlego a cadeias produtivas fragilizadas por choques sucessivos. Em muitos casos, programas de reconstrução pós‑pandemia e planos de transição verde só saem do papel graças ao protagonismo financeiro do Estado. Ao mesmo tempo, porém, o peso crescente do serviço da dívida estreita margens de manobra, especialmente para países que não comandam a própria moeda de reserva nem dispõem de credibilidade fiscal consolidada.

Para organismos multilaterais, o momento é de alerta. Estimativas indicam que a dívida total, somando setores público e privado, ronda 250 trilhões de dólares, cerca de 237% do PIB mundial, ainda acima do patamar pré‑Covid, embora com leve queda recente puxada pelo setor privado. No caso dos governos, a tendência já voltou a ser de alta, depois de um breve recuo pós‑pandemia, e cenários adversos projetam a possibilidade de o endividamento superar em até 20 pontos percentuais do PIB as trajetórias de referência nos próximos anos. Em linguagem diplomática, instituições como o FMI falam em necessidade de “reconstruir buffers fiscais”, isto é, recompor reservas e espaço de manobra antes do próximo grande choque.

Para além dos gráficos, a disputa é narrativa e política. Defensores de uma postura fiscal mais ativa argumentam que, em um mundo marcado por choques climáticos, desigualdade extrema e riscos autoritários, o custo de não gastar pode ser maior do que o de conviver com déficits mais altos. Citam como exemplo o papel das políticas expansionistas para evitar uma depressão global após 2020 e para financiar investimentos essenciais em descarbonização, inovação e infraestrutura social. Críticos, por outro lado, alertam para o risco de uma “armadilha da dívida”, na qual gastos crescentes preservam a curto prazo a estabilidade política, mas corroem, a longo prazo, crescimento e padrão de vida, sobretudo quando combinados a juros elevados.

No terreno concreto das políticas públicas, o consenso parece apontar menos para cortes abruptos e mais para uma requalificação do gasto. A recomendação recorrente é redirecionar recursos de subsídios ineficientes e renúncias fiscais regressivas para investimentos com maior impacto em produtividade, inclusão e resiliência climática. Ao mesmo tempo, cresce a pressão por reformas tributárias que ampliem a arrecadação de quem tem maior capacidade contributiva e reduzam a dependência de endividamento para financiar políticas anticíclicas.

A história econômica mostra que Estados podem, por décadas, sustentar dívidas elevadas desde que cresçam mais rápido do que os juros que pagam e mantenham credibilidade junto a credores e cidadãos. O desafio da década, em um mundo atravessado por transições simultâneas, será justamente equilibrar essa equação: usar o gasto governamental como motor de uma economia mais verde, menos desigual e tecnologicamente dinâmica, sem que o peso dos déficits correntes condene futuras gerações a um ciclo permanente de ajuste e estagnação. Entre a urgência do presente e a prudência de longo prazo, a política fiscal volta a ser o espaço onde se joga, em grande medida, o próprio futuro da globalização.

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