A Organização Mundial da Saúde confirmou, em boletim técnico divulgado ao longo do fim de semana, que o surto de hantavírus identificado a bordo do navio de expedições MV Hondius, com pelo menos três mortes e dezenas de casos suspeitos, envolveu transmissão entre seres humanos da cepa Andes, confirmação laboratorial que representa, do ponto de vista da virologia e da saúde pública global, um dado científico de relevância excepcional. A cepa Andes é a única variante conhecida do hantavírus para a qual existe evidência publicada de transmissão humano a humano, fenômeno descrito pela primeira vez na literatura científica durante um surto ocorrido no sul da Argentina e no Chile em 1996 e subsequentemente documentado em outros episódios isolados, mas nunca em um contexto geográfico confinado e de alta densidade de contatos como o de um navio de cruzeiro.
A biologia do hantavírus é, por si só, um exercício de admiração pela complexidade das interfaces entre o mundo animal e o humano. Os hantavírus pertencem à família Hantaviridae e são vírus de RNA de fita simples com segmentação tripartida, categoria que inclui patógenos de comportamento evolutivo dinâmico e com capacidade demonstrada de adaptação a novos hospedeiros. Cada espécie de hantavírus é, em sua história natural, mantida por uma espécie específica de roedor como reservatório, e a transmissão para humanos ocorre classicamente por via aerossol a partir de excrementos, urina ou saliva do roedor infectado. A cepa Andes, mantida pelo rato de campo Oligoryzomys longicaudatus, endêmico na região dos Andes e nas estepes patagônicas, é a exceção que desafia o modelo de transmissão exclusivamente zoonótica ao demonstrar capacidade, ainda que limitada, de se propagar de um ser humano infectado para outro em contato próximo e prolongado.
O MV Hondius, navio de 90 metros operado pela empresa holandesa Oceanwide Expeditions especializada em expedições polares e patagônicas, foi o vetor epidemiológico do surto por uma combinação de fatores que os investigadores do Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças estão documentando com precisão. O itinerário do navio, que percorria a região da Patagônia argentina e do Canal de Beagle antes do início do surto, expôs passageiros e tripulantes a excursões em terra em habitat natural do rato de campo portador da cepa Andes. A subsequente concentração de pessoas infectadas e de seus contatos próximos em um ambiente fechado e de alta densidade, como o navio, criou as condições para a transmissão interhumana que a OMS agora confirma.
A decisão da OMS de descartar o risco de pandemia, apesar da confirmação da transmissão humano a humano, fundamenta-se em uma avaliação epidemiológica de múltiplos fatores: a cepa Andes não demonstra, até o momento, capacidade de transmissão aérea de longa distância, como os vírus respiratórios de alto potencial pandêmico; a taxa de ataque secundário, ou seja, a proporção de contatos próximos que desenvolvem a doença, parece limitada; e o patógeno tem uma janela de incubação de 14 a 30 dias que torna relativamente fácil a identificação e o isolamento de casos antes que a cadeia de transmissão se amplie. O descarte do risco pandêmico não significa, contudo, que o episódio seja trivial: ele demonstra que a cepa Andes é mais capaz de transmissão interpessoal do que os modelos anteriores supunham, e que ambientes confinados são um fator de amplificação que precisa ser incorporado aos protocolos de vigilância de surtos de hantavírus em todo o mundo.
O episódio do MV Hondius é mais um capítulo da história inacabada das zoonoses, a classe de doenças transmitidas de animais para humanos que inclui, entre outros, a gripe aviária, o vírus Ebola, o MERS-CoV, o SARS-CoV-1 e o SARS-CoV-2. Todos os grandes surtos epidêmicos da história recente tiveram origem em interfaces de contato entre humanos e animais selvagens, e o aumento dessas interfaces, produzido pela expansão do desmatamento, do turismo de natureza e do comércio de animais silvestres, é o principal fator de risco estrutural para a emergência de novas doenças infecciosas com potencial pandêmico. O hantavírus, nesta semana, lembrou ao mundo que esse risco não precisa de um novo vírus para se materializar: às vezes, basta um velho vírus descubrir que o ambiente humano oferece oportunidades que o ambiente natural não oferecia.
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Marcelo Henrique de Carvalho, editor-chefe
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