Levantamento nacional aponta desaceleração nas adesões e mostra que oito municípios já voltaram a cobrar passagem após implantar gratuidade universal.

A tarifa zero no transporte público continua avançando no Brasil, mas em ritmo mais lento e com sinais de dificuldade financeira para parte dos municípios. Levantamento da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos, divulgado pela ANTP, aponta que o país chegou a 143 cidades com gratuidade universal no transporte coletivo urbano, mas também registrou oito casos de municípios que voltaram a cobrar passagem após adotar o modelo. (antp.org.br)

O estudo mostra que a política segue em expansão, com 16 novas cidades incorporadas em relação ao levantamento anterior, publicado em maio de 2025. Apesar disso, o crescimento perdeu força em comparação ao período posterior à pandemia, quando a adesão de municípios foi mais acelerada.

Entre 2021 e 2023, a tarifa zero teve forte avanço no país, com 70 municípios aderindo ao modelo. Nos anos mais recentes, o ritmo diminuiu: em 2024 foram registradas oito novas iniciativas, enquanto 2025 teve 21 novos programas.

A desaceleração aparece principalmente em cidades médias e grandes. Segundo o levantamento, apenas 14 municípios brasileiros com mais de 100 mil habitantes adotam a gratuidade universal. No último ano, apenas Canoas, no Rio Grande do Sul, e Itaboraí, no Rio de Janeiro, entraram nesse grupo.

A pesquisa também identificou, pela primeira vez, cidades que desistiram da tarifa zero. Oito municípios voltaram a cobrar passagem após períodos de operação gratuita. Os recuos ocorreram em cidades de pequeno e médio porte e expõem a dificuldade de manter o sistema apenas com recursos do orçamento municipal.

No estado de São Paulo, quatro cidades aparecem entre os casos de reversão: Jaboticabal, Monte Mor, Paulínia e Pirapora do Bom Jesus. As demais são Picos, no Piauí; Porto Real, no Rio de Janeiro; Tijucas do Sul, no Paraná; e Ubiratã, também no Paraná. (correiodamanha.com.br)

O principal ponto de pressão é o financiamento. Quando a tarifa deixa de ser paga diretamente pelo passageiro, o custo precisa ser coberto por outra fonte, como orçamento municipal, fundos específicos, receitas extraordinárias, subsídios ou participação de outras esferas de governo.

Em cidades menores, com sistemas mais simples e menor número de linhas, a conta pode ser mais viável. Já em municípios populosos, a gratuidade tende a aumentar a demanda por viagens, exigindo mais ônibus, reforço de frota, reorganização de linhas, manutenção da regularidade e ampliação da estrutura operacional.

A NTU estima que o custo anual do transporte coletivo urbano por ônibus no Brasil seja de aproximadamente R$ 75,7 bilhões. Em um cenário de gratuidade universal, com ampliação de oferta para absorver o aumento da demanda, esse valor poderia chegar a R$ 90,7 bilhões por ano. (antp.org.br)

O debate também alcança a capital paulista, onde a gratuidade é parcial. Em São Paulo, os ônibus municipais são gratuitos aos domingos, das 0h às 23h59, em todas as linhas, dentro do programa Domingão Tarifa Zero. (sptrans.com.br)

Para especialistas em mobilidade, a discussão deixou de ser apenas sobre a adoção ou não da tarifa zero. O ponto central passou a ser a construção de um modelo sustentável, capaz de ampliar o acesso ao transporte sem comprometer qualidade, frequência, segurança, manutenção da frota e equilíbrio dos contratos.

A tarifa zero pode trazer benefícios sociais importantes, especialmente para trabalhadores de baixa renda, estudantes, desempregados, idosos fora das gratuidades legais, pessoas que dependem do ônibus para acessar saúde, lazer, cultura e oportunidades de emprego.

Ao mesmo tempo, a experiência de cidades que recuaram mostra que a política exige planejamento de longo prazo. Sem fonte permanente de custeio, o risco é que o programa seja interrompido, prejudicando usuários que passaram a depender da gratuidade para se deslocar.

Para municípios paulistas, o tema deve continuar no centro das discussões sobre mobilidade urbana. A busca por alternativas de financiamento, integração regional, melhoria da qualidade do transporte e redução da dependência do carro particular será decisiva para definir o futuro da tarifa zero.

Serviço ao leitor:
Antes de planejar deslocamentos, consulte os canais oficiais da Prefeitura e da empresa responsável pelo transporte municipal para verificar se há gratuidade total, parcial, por dia específico ou apenas para grupos determinados. Em São Paulo, informações sobre o Domingão Tarifa Zero estão disponíveis em https://www.sptrans.com.br/domingao-tarifa-zero/. Dados nacionais sobre mobilidade e tarifa zero podem ser acompanhados pela ANTP e pela NTU.

Vinicius Mororó – Jornalista Atípico
Editor-Executivo-Regional
HostingPRESS Agência de Notícias de São Paulo
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